terça-feira, 3 de novembro de 2009
Vou-me Embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Manuel Bandeira
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Pra conversar...
E me encontra no silêncio da noite
Que não quer calar...
Ela me conta histórias sobre a Vida
Me relembra a Infância, há tanto esquecida
E traz à tona o tom perfeito
Do céu azul dos que não sonham
domingo, 18 de outubro de 2009
Mais um dia de sol
Mais um dia de Sol
Mais um dia bem bom
Mais uma rua que atravesso
Encontro um amigo e me despeço
Mais Alegria em meu corpo
Mais um pensamento bobo
Mais uma palavra séria
A Terra um dia mais velha
Mais uma vez dobro a esquina
Mais um frio na barriga
Mais fumaça dos automóveis
Vejo um prédio que alto sobe
Mais sorrisos nos Amigos
Mais um Tempo de estar contigo
Mais correria pela rua
Desejo te ver toda nua
Mais um Pôr-doSol que me emociona
Mais um dia que me abandona
Mais clara a Lua sobe
O Tempo demora, meu corpo te cobre
Mais desejos de quem se ama
Mais Amor em minha cama
Mais dizeres, mais pretextos
Muitos poemas, outros sonetos
Mais Prazer no corpo despido
Mais tesão num beijo comprido
Mais tarde, na alta Madrugada
Muito silêncio, não se ouve nada
Mais pesado meus olhos se fecham
Sem mais resistir ao sono me entrego
sábado, 17 de outubro de 2009
Ode de Álvaro de Campos
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
Álvaro de Campos, em Dois Excertos de Odes.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
como o dia quando nasce,
derramar a luz do que sou
nas coisas ao meu redor.
Talvez tivesse,
como a noite quando desce,
o estranho poder de ser absoluto,
de espalhar-se para ser um pouco de tudo.
E então, ao fim, morresse,
como sonho quando acorda,
vã esperança que se entendesse
o que a poucos, muito importa.